Não se preocupava com a morte. Isso não passava pela sua cabeça porque pensava mais na vida. Esta era muito mais interessante para ela. Se houvesse ou não algo além da vida, pouco lhe interessava. Talvez, ser criada por um pai que dizia que o que importava a ele era o que tinha feito e vivido, tivesse contribuido para esse entendimento. O fato é que, nos últimos tempos, perguntava-se "para que viver?". Pensava no que fazer dos seus dias. Era muita angústia e o pensamento de morte e o pensamento de vida, até Alice perceber que cada pessoa vive para uma coisa. Uns nascem para crescer, reproduzir e morrer. Outros para produzir, outros para amar, outros para aprender, outros para jogar a vida fora. Uns para fazer dinheiro, uns para fazer sonhos, uns para não fazer nada. Alguns são leves, alguns são pesados... Foi pensando na possibilidade da morte que Alice lembrou do que a mãe disse num desses momentos de felicidade para ela: para que morrer? É que a vida parecia tão boa naquele momento que até poderia ser eterna.Alice sorriu. Apesar de saber que algumas pessoas desistem da vida, sentiu-se autorizada a viver. Para que viveria? Sabe que a vida lhe parecia dura, mas bonita. Gostaria de viver fazendo arte. Achou que por esse motivo valeria a pena viver. Nada do que se faz, se leva, mas a arte sobrevive. Permanece em cada pessoa que foi tocada pela mensagem. Ainda que toque apenas uma pessoa, sobrevive em cada próximo fruto por quem se iluminou da arte de alguém. Uma pessoa que usou uma cor porque determinada palavra que ouviu germinou-a. Ou a palavra que veio inspirada por uma melodia que um estranho qualquer ouviu numa caminhada de fim de tarde a flutuar em algum lugar. Tudo isso é eterno, ela sabia. Ainda que Alice vivesse sem arte nenhuma fazer, gostaria de viver, mesmo que só para admirar.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Nos últimos meses, Alice havia envelhecido anos. Sentia-se diferente. A primavera chegara e ela ainda não conseguira olhar as flores. Estava atenta à vida. Sempre tentou evitar os riscos e, por isso, viver era algo quase como colar os cacos de um copo de vidro. De pouco em pouco, com cuidado para não se cortar. Tudo lhe causava medo, todo cuidado era pouco para não se ferir. Amava em silêncio, aparecia pouco, desejava pouco, falava pouco. Nos últimos meses, mais do que nos últimos anos, quando Alice já podia revelar-se, amou mais, feriu-se mais, falou mais. Agora, quando sorria, Alice fazia mais consciente do mundo. Sabia que se seu sorriso era doce, tratava-se de uma doçura diferente. Entendia a vida de outra forma. Sonhar com o vestido que usaria, ou com tudo que poderia fazer caso nada pudesse lhe impedir, ou com a viagem dos sonhos, ou com um amor antigo, ou com tantas outras coisas possíveis naquele mundo que às vezes era tão inacessível aos outros, lhe parecia bobagem. Nada lhe resgataria do País do de Verdade para seu antigo país. Agora, compreendia a vida de outra forma, e, para ela, esta era uma sucessão de dias mais ou menos felizes, com mais ou menos dificuldades, com alegrias e tristezas. Embora soubesse que o mundo não é cor-de-rosa, sempre evitou olhar para as tristezas. Preferia continuar colando o copo. Quando Alice se mudou de país, se permitiu jogar o copo no chão. Ficou com raiva numa discussão, deu um último gole e quebrou com pouca culpa. Nem os cacos recolheu. Sabia que era inevitável olhar para as coisas tristes da vida pois elas de fato existiam e também faziam parte do dia-a-dia. Alice aprendeu a enfrentar os medos, a ser mais tolerante com as pessoas realmente importantes. Aprendeu que não se tem poder sobre todas as coisas da vida e que ela própria não é um copo. Aprendeu que as coisas complexas não chegam sozinhas e que as coisas simples estão disponíveis. Olhou as flores que começavam a sair. Viu uma praça, um cachorro e vários pombos. Os pombos a insistirem nas migalhas, o cachorro a insistir nos pombos. O ônibus fez uma curva e o chapéu do senhor vôou. Olhou um menininho contando história para um bebê de colo e o bebê sorrindo. O mundo estava igual. Alice estava diferente.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Alice dançou. Há tempos não dançava... não suava... Dançou. Seus braços e pernas pareciam se entender. Um podia ir só. O outro podia ir acompanhado. Os dedos movimentavam-se, as mãos, o corpo. O corpo encolia e logo estava livre. Fechava e logo estava novamente feliz. O braço ia longe e podia alcançar o que Alice nem sabia, mas com certeza podia alcançar. O corpo paquerava Alice, como se dissesse o que Alice tinha esquecido. Os pés percorriam parados. O pescoço rodava. Deitada. Sentada. Podia sentir-se livre. A música era singela e pouco ela ouvia porque o que ela sentia de verdade era a si própria. O corpo ia para um lado e levemente passava para o outro. Espreguiçava, dançava. Não era ballet, não era nada que pudesse dizer o que tinha de ser. Era apenas o que Alice queria. Apenas isso. Braços que sobem, dedos que escrevem o ar num dialeto incompreensível. Se Alice estivesse falando naquela hora, se estivesse mudamente falando, podia bem entender. Falava que o corpo que estava anesteziado, agora dançava. Falava que gostava quando os olhos eram pintados, ou quando as unhas estavam vermelhas. Falava que gostava de cor. Falava que gostava de vento, de suor, embora só com muito esforço, Alice conseguisse suar. Seu cheiro era só quando acordava. Um cheiro bom de sono. Às vezes ela podia sentir. Quando suava, cheirava a água. Naquela hora, sentia os cabelos passarem pelo rosto levemente. Passavam pelo queixo, pelos olhos. Nunca tinha sentido como eram tão finos... Gostou de não tê-los encolido. O vento mal tocava a nuca. Ponta do pé. Perna esticada. Barriga. Braço alongado. Dobrava-se. Era um origame ansioso, que ora estava de um jeito, ora de outro. O corpo de Alice falava e ela mal tinha ouvido. Agora, ouvia. Dizia que queria ser percebido, reclamava atenção de Alice. O que ela podia fazer para reconciliar-se? A resposta era simples: precisava ouvi-lo.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Alice andou. Ainda era cedo e ela encontrou pelo caminho: uma calça e sapatos usados na calçada, embora o seu dono não estivesse dentro; um senhor carregando um cesto com pequenos peixes, mas que pareciam pesar toneladas; duas pipas dançando no ar, saindo de dentro do ônibus e duas mãozinhas agitadas, empinando-as; uma senhora fazendo sua caminhada matinal enquanto rezava o terço; ondas que se agitavam naquela imensidão azul que mereceu o nome de "mar". Alice impressionou-se com a vida que já havia começado enquanto ela sentia que ainda estava acordando. Gostava de olhar a vida. Estava parada e uma menina de cachos pretos se aproximou. Alice não era do tipo que procurava conversa, mas quando a conversa a achava, ela costumava ser receptiva. A menina tinha olhos curiosos, tudo queria saber, olhos de pessoa inteligente. Disse seu nome, tinha nove anos de idade. Alice já não tinha nove anos de idade há quatorza anos. Falava com Alice e sorria. Queria saber das coisas. Por que você usa isso na boca? Meus dentes não eram muito certos, então, eu usei um aparelho pra consertar e agora, uso esse pra mantê-los corretos. Ela se satisfez com a resposta. Saiu, saltitou, voltou. Você come com ele? De vez em quando. Você escova os dentes com ele? Não. Por que? Você não acha que deve ser difícil escová-los com isso? Elas sorriram. A menina saiu, saltitou, voltou. Olhava Alice curiosa. Você dorme com ele? Durmo. Você sonha? Alice, que já estava impressionada com aquela menina, estava, naquele momento, maravilhada. Como poderia uma criança de nove anos, que não a conhecia, se interessar pela possibilidade do sonhar? Alice era curiosa, mas nunca lhe ocorreu ver alguém e se perguntar se existia sonho... Para Alice, os sonhos eram muito importantes. Adorava sonhar e lembrar ao longo do dia. Adorava rir do seu próprio sonho. Às vezes, o sonho a fazia chorar, mas, em geral, lhe causava curiosidade. Adorava a possibilidade de fechar os olhos e surpreender-se com o que esse simples fato podia lhe oferecer: imagens, lembranças, alegrias ou tristezas. Sonho, você sonha? Sonho. Alice estava ansiosa por saber. Nossa, imagina o sonho dessa menina, pensou Alice. O que você sonha? E, antes que Alice pudesse descobrir, a menina foi chamada pela mãe, num chamado chateado de quem tem trabalho por ter uma filha tão inteligente e tão curiosa por saber da vida. Ela olhou para Alice, lamentou com pouca tristeza não poder continuar a conversa, mas sabia que conversa não lhe faltaria, pois onde estivesse, a conseguiria. Alice sorriu. Estava impressionada e nunca saberia quais as imagens, lembranças, alegrias ou tristezas aquela menina tinha ao fechar os olhos. Conformou-se.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Alice acordou. Dormia fazia meses. Dormia como fazia quando criança, quando sentia uma dor muito forte e não sabia o que fazer com ela. Com a dor. Era forte, cansava, tomava. Foi falar com a índia. Aquela mulher de cabelos cheios, como os que Alice queria ter. Pele alaranjada, como Alice queria ter. Sábia, muito sábia. Como Alice queria ser. Deitada, Alice sonhava, falava, desejava o momento de não mais sofrer. A índia que às vezes lhe desmontava, lhe desvelava, sem medo de que Alice pudesse morrer com suas palavras, falava. Dessa vez, parecia estar mais doce, mais entendedora que Alice já não suportava pouco saber. Às vezes, era difícil vê-la, pois encontrá-la era a possibilidade de se encontrar também, e Alice, como sempre, tinha medo. Mas, de tudo que se falou, o que mais ecoou dentro de Alice foi: o que é seu é seu. E, como num estalo, Alice despertou. Tinha tanto e ainda tanto a ter. Estava disposta, como depois de horas de sono, se bem que no caso dela foram dias... Queria entender o que mais podia ter. Queria muito. E, a dor, que também ela tinha, sabia que era dela e que um dia poderia entender. Mas sabia que tinha uma vida inteira para viver e além disso, nada mais queria fazer.
sábado, 16 de maio de 2009
Ela foi. Engoliu a coragem numa tentativa forçada de chegar. Estar num lugar desconhecido, sozinha, sempre foi desesperador. Lá estava ela então, ônibus com pouca gente, instruções anotadas, atenta ao caminho, inutilmente, pois seu mau senso de direção não seria o suficiente para fazê-la voltar sem motorista. Chegou. O lugar novo, pessoas novas, novo funcionamento. Trabalhar naquele lugar poderia ser bom, pensou Alice. Tudo foi explicado por uma moça simpática. Não tinha como evitar. O medo de assumir a vida, de se libertar da angústia do inevitável tinha que ser superado. Registro Geral, Carteira do Conselho, número da conta no banco, comprovante de residência, tudo tinha sido computado. Pronto, Alice já era uma das funcionárias. O empurrão que Alice sempre precisou para começar algo novo tinha sido dado, ela já estava lá. Sua ansiedade era: quando esse lugar vai se tornar mais confortável para mim? Alice sempre teve pressa. Pressa calada, é verdade. Pressa pouco dividida, mas angustiante para ela. Pressa de gente jovem, com vontade de saber se tudo vai dar certo. Lembrou-se do antigo trabalho. Estágio, é verdade, mas não deixava de ser trabalho. Lugar estranho também para Alice, e logo havia se tornado familiar. Alice deu os seus horários disponíveis no novo trabalho, esperando que aquele monte de secretárias marcassem algo para ela fazer quando fosse lá. Ansiedade boa. Menos medo. Alice entrou no ônibus para voltar. Nem sabia por onde passava, até que sentiu-se segura: estava em frente ao antigo trabalho. Saltou, resolveu pegar outro ônibus de lá. Sentiu uma calma depois do medo da morte. É, medo de morrer, medo do desconhecido, medo de assumir sua vida, de adultecer. Era tão confortável para Alice aquele lugar onde tudo era conhecido e entendido. Semana que vem, aproveito para voltar aqui, pensou Alice. Sabia que tinha coisas para fechar. E como era difícil fechar aquela janela! Alice gostaria de não precisar fechá-la. Marcou, e na semana seguinte lá estava: medo nos olhos, saudade no peito, conformada. A sensação de Alice era de que nada tinha mudado. Seis meses haviam se passado e parecia que tudo continuava igual. A mesma recepcionista, a mesma cor na parede, o mesmo som da vassoura na hora de pouca gente, o mesmo sorriso das pessoas. Tudo isso eram "coisas" que faziam daquele lugar o espaço que ela ficou um ano e que tanto aprendeu. Dessa vez, Alice mudou de lugar, sentou para esperar na recepção. Enfim, chegou quem ela precisava ver. Gostou de ter sido abraçada por ela. Sentia falta dos seus ensinamentos, dos almoços de supervisão, e às vezes de conversas pessoais. Para Alice, era bom vê-la novamente: a mesma leveza, o mesmo jeito de falar, o mesmo jeito de rir das coisas. Alice trabalhou, concluiu. Entregou a chave do armário, acabava de fechar aquela janela da vida que precisava ser fechada. Era como se a vida fosse um casarão cheio de janelas, onde em cada uma podia se ver um momento da vida. Casarão de janelas trancadas em que jamais poderia ver novamente os pais casados. Ou janelas entreabertas, que em cada situação de constrangimento atual, fazia abrir o sentimento da adolescência insegura, e que por mais que muitas sessões de análise tentassem trancá-la, ela insistia em se escancarar quando algo a fazia sentir tão pequena como naquelas situações de desamparo que viveu. Pronto, Alice fechou a janela e imaginou que ela iria para o corredor de janelas que Alice gostava de abrir, mas que provavelmente acabaria por ser pouco aberta ao longo dos dias de responsabilidade e novos contextos. Aquelas janelas que poderiam ser abertas mais vezes mas que só eram abertas quando um cheiro, uma frase, ou alguém fosse reencontrado. Janelas que mareavam os olhos e a faziam sorrir. Estava pronta para voltar pra casa. No ponto de ônibus, o mesmo cheiro de acarajé, pamonha, sorvete, pipoca. Os mesmos vendedores continuavam a vender no fim de tarde, os mesmos ônibus continuavam a passar, e ela, esperava. Esperava a hora em que seu novo lugar fosse tão íntimo como aquele.
sábado, 9 de maio de 2009
Entrou no ônibus. Já tinha feito tanta coisa pela cidade. Sentou. Ônibus vazio, dia ameaçando terminar. Pensava. O ônibus parou. Entrou aquele homem: cabelos descontraídos, calça jeans, camisa branca, sapato. Alice não lembra-se qual era o sapato, lembra-se apenas de que o rapaz parecia ter saído de uma revista. Olhou. Ele perguntou para o cobrador. Esse ônibus passa na Barra? Sim. Quando Alice deu-se conta, o sim tinha saído da sua boca. Que sim dizia? Logo ela que é tão tímida para contatos iniciais. Por que respondia a quem nada havia lhe perguntado? Envergonhou-se, olhou para a janela. Sentou perto dela. Pensamentos em sua cabeça como de costume e o pensamento já não era mais ele. O ônibus entrou no caminho do mar e a moça em sua frente levantou-se. Ele sentou-se em seu lugar. Tantos lugares vazios havia se aproximado. Olhou para ela que olhava para o sol. Bonito, não é? Por algum motivo, Alice estava cheia de atitude. Ele concordou. Como é seu nome? Alice, e o seu? Florêncio. Conversaram. Era o homem mais lindo que já havia olhado para Alice. Ela até esquecia-se do amor no interior, do amigo-colorido, todos os homens que ela amava, que admirava, haviam sido esquecidos naquele momento. Ele perguntou qualquer coisa que ela não podia mais lembrar, mas que havia respondido de forma a não deixá-lo perceber todo o encantamento. O caminho parecia maior que o de costume. A orla parecia ter crescido. O meu ponto está chegando, o que acha de saltar comigo para terminarmos de ver o sol cair? Ela pensou. O que diria? Queria ir, mas tinha medo. Medo de que? Saíria com um estranho que de estranho não tinha nada? Saíria com aquele homem lindo que convidava-a calmamente para ficar junto dele? Enquanto as dúvidas passavam o ponto também passava. Ele continuou em sua frente esperando sua resposta. Alice ainda não podia responder. Pensava e em sua frente, Florêncio esperava. A calma havia sumido porque o ponto seguinte havia passado. Alice, você vai? Ela não sabia. Queria mas não podia. Toda ansiedade do querer mas não poder estava em seus olhos e refletia-se no dele. Outro ponto e ele falou. Três pontos se passaram, preciso saber se você vai comigo ou terei que ir sozinho. Não vou. A tristeza a invadiu. Onde estava toda atitude? Onde estava o sim que tão facilmente saiu da sua boca quando nem precisava sair? Ele apagou-se. Pegou o celular e mostrou-lhe. Você pode me dar seu telefone? Ela pensou. Não sabia se deveria. Alice, não posso perder mais um ponto. Tanta angústia se passava. É inviável, ela disse. Ele olhou sem raiva e levantou. Saltou. Ficou parado em frente ao ônibus e olhou para ela que ia quase que sem ir, quase ficando lá. Despediram-se. Alice sabia que era a única vez que veria Florêncio. Não sabia o que sentia exatamente. Estava envaidecida? Estava triste? Uma coisa não saía da sua cabeça: "Inviável".
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